Mariana era apenas mais uma. Mais uma menina no mundo, mais uma desajustada, incompreendida. Não conseguia entender o motivo de ser tão diferente. Seriam suas roupas?Seriam suas orelhas?Suas pernas?Talvez. Tinha 12 anos e não tinha corpo. Queria ser como as amigas: ter peito, usar sutiã. Beijar um garoto como as amigas faziam com tanta freqüência?Isso nunca. Um verdadeiro atentado ao pudor. No mínimo deus a mandaria pro 13º andar do inferno. O tempo passou e a cada hora, a cada segundo, ela se sentia mais perturbada. Talvez um alienígena que foi parar sem querer na rua dos alfaiates.
Acabara de completar 14 anos. Um dia, após tomar banho começara a perceber os estranhos olhares de seu tio. Ele a fitava de todas as formas. Quando a enxergava parecia que os olhos tomavam outra dimensão, a fuzilavam. Moravam juntos mais ela nunca houvera tido intimidade com ele. Achava-o estranho, sozinho, meio grosseirão. Certo dia sua mãe teve que viajar, tivera que ficar sozinha na casa com o tio, seu pai havia falecido, coitado um bom homem, pena que a úlcera não o poupara. A mãe saiu. A casa parecia desabitada. Mariana olhando pela janela o que a vida poderia ser. Tinha tantos sonhos. Queria ser livre, Uma Marilyn Monroe dos anos 2000. Queria ser independente, bonita, queria atrair os homens, fazer-los sentirem tesão por ela.Se recriminava por ter certos desejos estranhos.Família católica,princípios e valores marcados e obedecidos.Um banho seria a solução,estava viajando em pensamentos.Banheiro:se despiu.Olha no espelho e se avalia.Corpo estranho,não tinha peito,pernas finas.Seu sexo lá parado.Queria usá-lo.Queria sentir prazer,queria os famosos orgasmos.
Pensando em tudo isso não percebe o barulho. Alguém adentrando no banheiro. Fugaz e rápido. Em menos de um minuto o banheiro não era só seu. Seu tio, aquele estúpido grosseirão estava em frente a ela. O que faria?Não sabia...
Ele era grande, forte. Seu coração descompassou, as vértebras pareciam querer quebrar. Calafrio. Ele segura a cabeça dela. Mostra seu sexo. Inclina as mãos dela na direção dele. Pede que o chupe. Ela resiste. Tenta sair. Ele a agarra. Grita e desfere-lhe uma tapa. Cai no chão. Ele fica sobre ela. Enfia seu pênis nela. Dolorido, desconfortável sensação. Após meia hora ela sente um alivio. Ele a deixa em paz e vai embora. Ela fica lá: estatelada no chão. As lágrimas se fundem ao sangue. Um mixto de humilhação, submissão e vergonha. Então era isso o sexo?Um brutamonte enfiando o pau numa mulher que fica calada, se sentindo oca?Sua fantasia sobre o mundo do sexo iria por água abaixo. Sua concepção ingênua e tênue desfigura-se. Esperava um homem que se rasteja aos seus pés, queria gozar também, não queria ser só um instrumento, uma boneca a serviço do homem, queria conhecer seu corpo e acaba conhecendo da pior forma possível: violentada por um homem imbecil e com o saco fedido. Mais o pesadelo seguiria com mais...
Depois desse dia, a qualquer oportunidade ele a encurralava e a dilacerava. Não podia contar nada pra mãe. Tinha medo. O que faria?Sempre fora uma moça pobre, quase sem nem um estudo. A mãe fazia bicos e lavava roupa pra fora. O tio era um vagabundo alcoólatra, um ser broxante, que não conseguira nada sério com uma mulher. Tomou uma decisão: ou matava o tio ou fugia de casa pra conseguir emprego, o que escolheria?Não queria se tornar uma assassina, o que a mãe pensaria?Queria ser feliz, queria realizar seus sonhos, desfrutar de uma vida boa ao lado de um homem que a amasse de verdade, e proporcionar conforto a mãe, pobre mulher. Sai de casa pela madrugada. Não agüentava mais ter que chupar, dar pra um cara como ele, não suportava ter que fingir ter prazer com um homem asqueroso. Pra onde iria?Não sabia. Pega suas poucas roupas e economias e embarca no primeiro trem. Para na cidade mais próxima. Arrumando um emprego tudo seria mais fácil. Tinha pouco dinheiro, teria que trabalhar depressa, teria que voltar pra casa relativamente bem e com grana. Não podia continuar a ser uma jovem que sofria todos os dias. Tinha apenas 14 anos mais na mão do tio amadurecera 20 anos em um. Procura emprego, as pessoas diziam: não, não e não. Menina, você é muito nova, onde estão seus pais?Deveria estar na escola. Ela apenas calava. Conseguiria algo na vida. Uma semana e nada. Uma moça da cidade, Isaura, indica um lugar, uma casa de massagem. Ela aceita. Finalmente conseguiria um emprego. Estava ansiosa. Acordara cedo no outro dia. Mais sua felicidade criou asas. Além de massagens, teria que, nas palavras da cafetina Carola: dar uma trepadinha com os clientes. 25 por cento do que ganhava ficava com ela e o resto pra cafetina. Pensou e pensou. Resolveu aceitar. Ali começara a colidir consigo mesma, como faria pra atender homens que nunca sequer tinha visto?Como ficaria nua, tão jovem, corpo em desenvolvimento pra homens que só queriam uma hora de sexo e um orgasmo pra satisfação?E o seu prazer na cama, existiria?Após anos no "ramo" aprendeu muita coisa: a fingir que estava gostando, aprendeu a manipular o homem na cama, trepou com todos os tipos,atendeu milhares de fantasias,fez chuva negra,chuva dourada,fio terra e tudo mais que o cardápio pudesse oferecer.Chegara um momento que pensou:estou quase com vinte anos,o que farei de minha vida daqui por diante?Ela tinha consciência que a carreira de meretriz tinha prazo de validade e que o produto (o corpo) tinha suas épocas de fartura no mercado. Infelizmente, nunca conseguira sair dessa vida, estava convencida a passar o resto da vida sendo um objeto, servindo apenas como uma vagina de plástico que qualquer desconhecido com 200 reais pudesse pagar. Corre do puteiro, abandona tudo e some no mundo, ninguém mais tivera noticias de Mariana, a pobre menina que apenas queria ser amada e transar com o homem que ama pro resto da vida...