segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Conto de fadas do século XXIII.

A Chapeuzinho Vermelho não é mais uma menina doce e ingênua que se perdeu na floresta. Ela agora engravida e trepa, tudo com muita malicia e terceiras intenções. A Bela Adormecida saiu do sono eterno e cansou de esperar pelo beijo do príncipe que a salvará. Ela sabe muito bem que os príncipes não chegam mais em cavalos brancos e nem mandam cartas, agora eles enviam um e-mail e chegam de carro. O grande baile de anúncio de casamento das princesas se transformou em uma grande balada na melhor boate da cidade, claro que tudo regado a cerveja, cigarros e drogas. O príncipe jura amor eterno hoje e transa com a melhor amiga da bela, casta, pura e virgem princesa que está na torre mais alta do castelo esperando o homem da sua vida que na verdade consiste em um sapo do brejo.A madrasta má da Branca de neve nem é tão má assim, ela só é mesmo aquele tipo de mulher que sente inveja de mulheres belas. A cinderela não perde o encanto depois da meia-noite, agora ela perde sua pureza para qualquer um que tenha uma boa lábia. A Rapunzel usa cabelo Chanel e vende seu sexo para qualquer um que possa pagar uma quantia que mate sua fome. Ela é outra desiludida com os contos de fada. Agora as princesinhas pueris não são mais meninas bobas e alienadas com a sociedade. Elas vão à luta e trabalham e não aceitam serem enganadas. Elas querem viver um lindo romance, mas preferem vivê-lo com os pés no chão.
Não vivemos como os antigos e bonitinhos contos de fadas, sempre com um final feliz e as crianças saudáveis. Vivemos um verdadeiro caos, com direito a terrorismo psicológico. O nosso conto de fadas é do século XIII e temos que correr atrás dos sonhos para sermos felizes.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O coração dela.


O coração dela não é domesticado, é bastante selvagem. Não tem identidade mas sabe muito bem quem é e o que precisa fazer. O coração dela é um poço raso e fundo, ao final encontramos limo e um pouco de paz. O coração dela já foi colado, grudado, pregado a outras coisas, mas nunca se satisfaz. O coração dela tem marcas invisíveis e algumas não visíveis a olho-nu. O coração dela é de todas as cores e agora pertence ao mundo, já foi também uma matize do preto. O coração dela é obsceno, flerta até o amanhecer com outros corações para tentar suprir a falta que a falta faz. O coração dela blasfema de vez em quando mais pagara muitas penitências ao escolher um outro coração que só a afogava. O coração dela não está em coordenadas geográficas, não se situa em um determinado espaço. Consegue ficar transparente para que não percebam o quanto anda fraco. O coração dela procura um peito para se encaixar e repousar mas só encontra pílulas pelo caminho. O coração dela sofre terrorismo psicológico que para ele duram alguns segundos de diversão e para ela seis semanas de um roteiro deturpante. O coração dela não tem pernas, mas aprendeu a correr em busca de algo ou alguém que lhe faça enviar um sorriso para a boca. O coração dela não precisa se alimentar, não precisa de água, e sim de uma dose reconfortante de alguém que queira completar as lacunas da sua atmosfera, do seu mundo despovoado. O coração dela não precisa de um aparelho que a ajude a respirar, precisa mesmo respirar com você. O coração dela tem inúmeras vidas, já caiu do primeiro andar e quase morreu, só não partiu dessa para melhor na esperança da sua visita no hospital, só esperava você para descobrir uma terra e batizar uma história. Só tinha no coração uma vontade incessante de conquistar um abrigo em você.

Não reconheço, não sei nada.

As pessoas caminham nas ruas, as bicicletas e carros trafegam normalmente. Sinal verde para todos eles, sinal verde para o mundo. Menos para nós. Sinal vermelho sangue para você e eu. As velas se apagaram, cederam a algo que não se conhece a natureza. A música toca e eu não consigo escutá-la, os ouvidos se perderam junto com os outros sentidos, não estão dentro de você e muito menos em meus domínios. A fruta apodreceu na árvore, a casa ta velha e a gente não se reconhece mais. Não adianta beber para esquecer quem está preso nos nossos detalhes, meus detalhes, se são seus também não sei. A responsabilidade de ser o modelo, ser quem você tanto esperava corroeu as poucos o que eu tinha por dentro. Eu ando por ai, o vizinho comenta com a tia da quitanda que eu tenho um semblante de um senhor que trabalhou a vida inteira e ganhava uma merda de salário. Acho que envelheci 10 anos em alguns meses. To fudido, mas to vivo, ainda. Eu ando muito em busca do casulo que te tirei. Os vermes estão comendo as minhas tripas e andam disputando meu coração. Eles não sabem que você rasurou um dia o que eu chamo de coração. Eu lhe vejo incolor, mostrando o sorriso originado da orgia terrorista que cercava esse cara que escreve. As pessoas dizem que o céu está azul, o sol irradiando lá fora, as crianças estão correndo e brincando e tudo que vejo é um mundo sem foco, sem alguém pra te dizer eu te amo, a bola de cristal errou e eu errei o alvo que peguei na carona de volta pro nada.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Me acompanha

Pega na minha mão e segura forte, MUITO forte. Vamos passear juntos pelos campos de centeio. As frutas estão saborosas e eu te quero nesse segundo que antecede teu sorriso. Eu quero te tirar da selva de pedra e fazer com que passeies pelo meu corpo. Vamos pra sala de estar, lá eu desvendo tuas curvas e o que te faz ir ao céu. O sol irradia lá fora, para de ver TV e vamos sair por aí, contemplando as formas que as nuvens tomam. Deixa a louça suja para um outro momento e aproveita pra deixar as mágoas escorrerem pelo ralo, vamos sair sem pensar no antes. Vamos pro meio do asfalto ou pras fronteiras das cidades e dançar nossos passos antiquados mais tão apaixonados. Se fores embora eu não tenho nem um trocado mais tenho um sorriso, pode levá-lo?
Vamos brincar de se perder um no mundo do outro. Vamos quebrar a ampulheta e esquecer que cada dia que passa é mais um grão rumo à velhice. Envelhece comigo até eu morrer de alguma coisa?Eu preciso saber que você vai estar no meu leito de morte pra descansar em paz.
Não existe mais janela, luz ou escuridão. Paredes ou compromissos. Só existe a vontade de te pegar pelo braço e fugir no nosso balão imaginário rumo ao mundo acima da atmosfera que criamos. Não existe o antes e o depois, nem o passado e nem o futuro, existe apenas o momento de ficarmos juntos, independente de termos 8 ou 80 anos.
Quer ser minha pra sempre?O meu coração te escolheu e ele não aceita não como resposta.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Ele

Alvo de bomba. Maçã sem verme. Sujeito sem predicado. Ele não vê uma luz no fim do túnel, apenas um bar sujo. Ele vê duas portas que poderia escolher e se joga pela janela vertical. Ele é prudente e abandona o barco antes de afundar e dessa vez pulou fora antes e deu adeus. Ela pensa que ele não sente e ele prometeu que ela nunca vai saber o quanto o coração dele foi partido. Ele não precisa de nada, mas precisa de um abrigo. Ele não perdeu uma amiga e sim um fragmento de si. Ela é (agora) o veneno que um dia me aliviou a dor. Ele decidiu habitar outro mundo, o nosso já estava povoado demais. Ele se sente como um leão dourado numa jaula de zoológico: por poder ver o mundo e não ter permissão para cair nele. Ele se sente como o peixe dentro do aquário: não pode ultrapassar uma pequena barreira. Ele age como o médico que opera alguém com material vagabundo. Ela pede pra ele não sair da vida dela, mas ele percebe que anda sobrando nas frestas. Ele a vê aos prantos e fica assobiando. Ele precisa de alguém pra conversar, mas quer que esse alguém não fale nada. Ele não sabe quem é. E nem o motivo de estar escrevendo isso. Ele só quer viver com um pouco menos de rachaduras.